Os cinco níveis da alma

Há cinco níveis da alma, segundo a tradição judaico-cabalista. Uma gradação que vai da existência biológica até a unidade com Deus.

I) Alma – Nefesh (נֶפֶשׁ), equivalente ao grego psiqué (ψυχῇ) e ao latim anima. É o plano da vida biológica, da matéria, do sangue, mas também do sentimento, da mente, da consciência individual. Está presente nos seres vivos, plantas e animais. Faz com que o objeto inanimado tenha vida biológica e, em níveis mais elevados (mamíferos superiores), razão lógica (nous). A alma é misturada ao pó da terra (“anima” a matéria, dando-lhe vida e fazendo mover-se).

II) Espírito – Ruach (רוח), equivalente ao grego pnevma (πνεύμα), e ao latim spiritu. Significa ar em movimento, vento. É o plano da espiritualidade e da razão superior. Está presente no ser humano.

III) Sopro de vida – Neshamá (נשמה). No hebraico, a palavra vem de respiração (Neshimah), respirar (Linshom). Se espírito (Ruach) é ar em movimento, vento, o sopro (Neshamá) está fundamentalmente ligado à existência pessoal, individual, de consciência superior. Também está presente apenas na espécie humana.

Deus soprou nas narinas de Adão o Neshamat Haiim (נשמת חיים), traduzido como sopro da vida, e ele se tornou alma vivente (Nefesh Haiah נפש חיה). Em hebraico, o verbo dessa ação divina da criação do homem é poderoso: Iehi (יהי). Ao criar o homem, Deus pronunciou o mesmo verbo (haver) da criação da luz (Iehi or – “Haja luz!”). Ao soprar o sopro divino dentro do ser humano, o Criador transfere sua substância e essência (ver acima).[1]

Por ser um sopro de Deus, o Neshamat Haiim é um plano de existência e vida divina, que tende ao terceiro nível da alma, o Hai (חי) – ver abaixo.

Segundo a Cabala, no nosso plano da existência terrena somente temos acesso, no máximo, ao Neshamá, e não aos planos superiores.

Interessante – e triste – notar que Deus não manifestou alegria ao criar o ser humano, no Gênesis. Não “viu que era bom”, como disse para outros elementos da criação. Como diz Marilena Chauí, em uma palestra sobre Spinoza, desde que criou o homem, Deus só manifestou cólera e desgosto. Tanto que expulsou do paraíso e destruiu a raça humana pelo menos duas vezes. Mas, embora não tenha manifestado alegria, Deus abençoou a humanidade – “crescei e multiplicai-vos”, “dominai” (sobre a natureza). De fato, a humanidade cresceu em conhecimento e poder, hoje somos mais de 8 bilhões de habitantes, e dominamos de tal forma a natureza que a depredamos para nosso consumo insustentável e conforto (resultando no Antropoceno, mudanças climáticas). Haverá outra “renovação” da criação (“céus e terra”) e da humanidade…

IV) Vida superior – Hai (חי). É o plano da vida plena. Representado pela “aura”.

V) Unidade com Deus – Iehidah (יחידה). É o plano da unidade primordial, umbilical, cósmica e eterna com Deus. Somos todos oriundos dEle, e sempre estamos unidos a Ele, o Criador de todos os seres e o Autor da Vida.

Vale explicar algo interessante sobre o Nome de Deus em hebraico, representado pelo tetragrama impronunciável IHVH יהוה. Quando lêem a Torah e se deparam com este Nome, os judeus não o pronunciam, e o substituem, na leitura, pela designação HaShem, que literalmente significa “o Nome” (de Deus). Pois “o Nome” יהוה é a combinação do verbo “Ser” nos tempos passado (היה), presente (הווה) e futuro (יהיה). Em outras palavras, “o Nome” יהוה É o Ser Eterno.

Quando Moisés pergunta a Deus qual o Seu Nome, no monte Sinai, Ele responde na primeira pessoa do tempo futuro: “Eu Serei Aquele que Serei” (אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה).

 

Criação

A Cabala tem dois grandes estudos: o da criação (Maaseh Bereshit) e o da “carruagem de fogo” (Maaseh Merkavah), sobre mistérios gloriosos.

Segundo a Cabala, há quatro níveis da criação:

I) Azilut (אֲצִילוּת) – emanação do Criador;

II) Beriah (בְּרִיאָה) – criação do Nada (ex nihilo);

III) Yetzirah (יְצִירָה) – formação de algo a partir de algo já existente;

IV) Asiyah (עֲשִׂיָּה) – fazer obras, realizar ações;

O primeiro nível (Azilut) é o da emanação do Deus Criador, com suas propriedades. A criação é, assim, uma epifania de Deus. “Nele nos movemos e existimos”, lembra o Apóstolo Paulo ao citar um poeta grego, na Ágora de Atenas. Tudo foi criado “por Ele e para Ele”.

Nascem (ou são gerados) o Nada (Ayin) e o Infinito, ou Sem Fim (Ein Sof). O Nada (Ayin) lembra as trevas do Gênesis, e o Sem Fim (Ein Sof) a face do abismo, a matéria escura do universo.

A partir do Nada (Ayin), e tendo o Infinito (Ein Sof) como espaço de ação, o Criador faz as coisas usando Sua Palavra Criadora, segundo Sua Sabedoria e outras manifestações de sua potência e essência (Sefirot – ver abaixo), e alguns métodos de trabalho.

Cabalistas cristãos veem aqui o Logos (λόγος) criador (traduzido erroneamente como Verbo, mas em grego significa Palavra, discurso, razão), que é Jesus, conforme o Evangelho de João, que oferece, em seus primeiros versos, uma interpretação própria do Gênesis.

“No começo era o Logos, e o Logos estava com Deus”. Embora o original esteja em grego, há versão traduzida do Evangelho em hebraico,* na qual Logos é traduzido por Davar (דָבָר), “a Palavra”.

Em hebraico, é interessante notar que davar significa ao mesmo tempo “palavra” e “coisa”. A palavra cria coisas. São equivalentes. Da mesma forma que energia e matéria são intercambiáveis, se combinadas com a luz, na equação de Einsten (e = mc2).

A tradução “estava com” Deus, no grego original (ἦν πρὸς), não indica “estar”, mas “ser”, “existir”, “em direção” ou “para”.

Na frase seguinte, a relação é ainda mais clara: “E a Palavra Era Deus”. No original grego, a construção é inversa: “E Deus Era a Palavra” (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος).

“Ele Estava no princípio com Deus.” No original grego, “no princípio” – en arché (ἐν ἀρχῇ) – remete, de forma interessante, ao conceito de arquétipos.

A frase seguinte, “Tudo foi feito por meio dEle, e sem Ele nada do que foi feito se fez”, mostra a causa e a conexão umbilical entre toda a criação e o Criador, mas por meio de um intermediário. Em grego, “tudo” é panta (πάντα), que remete ao panteísmo.

E a construção mais longa “nada do que foi feito se fez” é mais simples no original: “não haveria nada” egéneto oudé en (ἐγένετο οὐδὲ ἕν).

Esse intermediário é, para os cristãos, Jesus, identificado com a Palavra; no Antigo Testamento, há o livro da Sabedoria, que também é a personificação do intermediário.

No nível Beriah, as coisas são feitas do Nada (ex nihilo), inclusive fora da dimensão de tempo, usando um comando, uma palavra criadora: “Haja” (Iehi). Assim foi feita a luz, por exemplo: “Haja luz” (Iehi Or).

No nível Yetzirah, as coisas são feitas a partir de outras já criadas, por meio de comandos (ou métodos) de: separação (por exemplo, águas “de cima e de baixo”); junção (águas e terra); expansão (do firmamento); multiplicação e diferenciação. A Física, a Química e a Biologia usam esses mesmos métodos. Também a Engenharia.

No nível Asiyah, tudo já está criado, e as ações consistem em manipular ou mudar suas configurações para fazer ações “concretas”, produzir realidades e obras novas. Alguns dos comandos ou métodos de Yetzirah são operacionais na Asiyah.

 

Essa concepção cabalística, bem como a das emanações (Sefirot) como projeções e manifestações da potência ou essência, ou ainda atributos de Deus, não está presente de forma explícita na Bíblia, muito menos no Gênesis.

Elas têm sua base numa interpretação neoplatônica das Escrituras, comum na Idade Média. Isso revela a tensão, de um lado, entre uma visão rabínica tradicional, talvez mais antropomórfica, de Deus, e, de outro lado, a influência helenista platônica e aristotélica. Essa mentalidade influenciou, além dos cabalistas, Maimônides e Spinoza. Segundo essa visão, Deus é tão superior, perfeito e imutável (qualquer mudança ou dinâmica interna representariam imperfeição inadmissível) que não tem vontade, intenção, não age, não fala, não faz nem cria, não se intromete no mundo…

Para tentar compatibilizar a evidência de uma criação como manifestação de vontade (e até de prazer ou decepção divinas) com essa mentalidade neoplatônica e aristotélica, a solução foi imaginar a criação como emanação da Divindade.[2] Uma visão elegante e convincente, palatável para intelectuais, mas que ainda mantinha inconsistências com o Deus bíblico conhecido dos rabinos, que manifestava sentimentos e emoções, tal como os homens.

A Cabala mostra o contraste entre o “mundo da unificação” (Olam haIchud) e o “mundo da separação” (Olam haPerud). O primeiro pode ser associado ao da Unidade e Vontade de Deus, de Sua Essência Eterna, da imanência, e o segundo, o da diferenciação resultante das emanações, que geram a transcendência, suas revelações e representações ou fenômenos no “mundo concreto”.

A partir dessa unidade e simplicidade gera-se o caos da fragmentação, que é “domado” e se transforma em cosmos (ordem). “Deus joga dados”, sim, para incredulidade de Einstein, mas não perde o controle. A regra é a indeterminação, para desespero dos newtonianos clássicos. Mas, no plano macro de toda a criação, prevalece a determinação no nível mais elevado de todos. O “sarrafo” do determinismo é bem mais alto do que a Ciência suspeitava. Deus usa sistemas caóticos para governar a realidade, mas nunca perdeu o controle sobre o próprio caos, que segue regras naturais que Ele mesmo estabeleceu por vontade e projeto.

Em outras palavras, o Criador estabelece suas leis e seus planos no plano mais elevado da realidade, e delimita espaços dentro dos quais os indivíduos podem exercer sua liberdade e livre arbítrio, e mesmo as partículas e ondas navegam da indeterminação, mas o resultado não ultrapassa certo nível de possibilidades.

Os cabalistas elaboraram a chamada “árvore da vida”, com onze sefirot distribuídas em três colunas. É interessante fazer um exercício de imaginação e ver que essas três colunas podem ser vistas como extensão vertical da forma horizontal das extremidades do Menorah, com três ramos simétricos de cada lado, conectadas no eixo central por quatro pontos.

As sefirot se distribuem em cinco níveis e três colunas, todos interligados.

Os cinco níveis são:

i) Coroa (Keter), no alto, no centro, como a cabeça. No Menorah, corresponderia à parte central e superior, que contém a primeira chama, sempre acesa, e a partir da qual se acendem as outras, da direita à esquerda (como a escrita hebraica). A vela central se curva, humildemente, para acender ou “servir” as outras com sua luz.

ii) Reino (Malkut), na base, no centro, como fundamento assentado no chão da “realidade”, como se toda a estrutura superior, de potência e essência divinas se “concretizassem” ou “materializassem” no plano “real” do “mundo”.

iii) Nível do pensamento: à direita, a sefirah da Sabedoria (Chochmah); à esquerda, a sefirah do Entendimento (Binah).

iv) Nível da alma: à direita, a sefirah da Misericórdia, Caridade e Amor (Hesed); à esquerda, a sefirah da Justiça e da disciplina coercitiva (Gevurah).

v) Nível das recompensas “terrenas”: à direita, a sefirah da Vitória (Nezah); à esquerda, a sefirah da Glória, Esplendor (Hod).

Esses cinco níveis horizontais se estruturam em três colunas verticais.

i) Do lado direito, Sabedoria (Chochmah), Misericórdia, Caridade e Amor (Hesed) e Vitória (Nezah).

ii) Do lado esquerdo, Entendimento (Binah), Justiça e disciplina coercitiva (Gevurah) e Glória, Esplendor (Hod).

iii) No eixo central, acima, a Coroa (Keter); no centro, o conhecimento (Daat), a Beleza (Tiferet) e a Fundação (Yesod); na base, conectada com o “chão”, o “mundo”, o Reino (Malkut).

É interessante notar que os três eixos estão em tensão e equilíbrio entre si. A estabilidade da estrutura depende da ação harmônica entre todas as forças, e de sua estreita interconexão.

Forças e contra-forças de expansão e contenção recíproca, em torno de um eixo central.

Do lado direito, forças dinâmicas, indiferenciadas, com potencial de expansão: Sabedoria, Misericórdia e Amor e Vitória.

Do lado esquerdo, forças de concentração, contenção ou foco, com vistas à diferenciação e individualização: Entendimento, Justiça e coerção, Glória.

Essa estrutura lembra a dos dois hemisférios do cérebro. O lado direito é o sensorial, emocional, artístico e intuitivo. Já o esquerdo é analítico, lógico, concreto. O perfil de cada um dos lados é compatível com o das sefirot das colunas direita e esquerda da árvore da vida da Cabala.

Um exemplo. A Sabedoria (Chochmah, coluna da direita) é força expansiva, mas o Entendimento (Binah, coluna da esquerda) é concentrado. O Conhecimento (Daat) se situa no eixo central. Para ser eficaz, o conhecimento deve ter uma sabedoria focada pelo entendimento. E vice-versa, o entendimento por si só, sem sabedoria, é frio e calculista.

A Sabedoria está contida na mente indiferenciada, ao passo que o Entendimento consiste em objetos diferenciados, definidos, delimitados. A humanidade está unida no plano da Sabedoria, ao passo que o Entendimento se situa no nível do sopro individual de vida e consciência.

Outro exemplo: a Misericórdia, a Caridade e o Amor (Hesed) são forças expansivas, e a Justiça e a disciplina coercitiva (Gevurah) são repressivas. Muita caridade e amor sem disciplina se perdem e causam desequilíbrio na família e na sociedade; de forma semelhante, muita justiça sem piedade e compaixão geram uma sociedade autoritária, impiedosa, a exemplo de regimes totalitários e religiões formalistas, ritualistas e repressoras.

Os ensinamentos de Jesus mostram a importância de interpretar a Lei de acordo com a Misericórdia. Suas repreensões aos fariseus, saduceus e hipócritas vão nesse sentido. O Amor, a Misericórdia e a Compaixão são muito mais importantes que as regras religiosas. Passagens como a prostituta em vias de ser apedrejada (“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”), o espírito acusatório (“A medida com que medires serás medido”) e a própria oração (“perdoai-nos as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”) vão nessa direção.

Cabalistas cristãos veem Jesus na sefirah Beleza (Tiferet), no eixo central, conectando todas as sefirot. Também o interpretam como o Adam Ḳadmon (Homem Primordial), o que recorda a visão do Apóstolo Paulo de Jesus como o “novo Adão”.

Na aparente “hierarquia” cabalista das sefirot na “árvore da vida”, provavelmente como influência do neoplatonismo intelectual, primeiro aparece a Sabedoria (Chochmah), e em seguida a Misericórdia, Caridade e Amor (Hesed). Mas creio, em minha humilde condição de curioso na matéria – embora tudo seja interligado e harmônico, tanto na “árvore da vida” quanto no cérebro (segundo as neurociências) –, que primeiro vem um sentimento, antes do pensamento. Há precedência da emoção sobre a razão. Se for assim, o Criador “sentiu” antes de “pensar”. Se isso for correto, a primeira sefirah deveria ser, não a Sabedoria, mas a Caridade e Amor.

Nesse sentido, Deus criou o mundo primeiro com Amor / Hesed (“por amor de Seu Nome”) e depois com sabedoria (Chochmah). Em paralelo, para dar-lhes dimensão “concreta” e individualizada, usou regras coercitivas (Gevurah), de justiça (Din), inclusive mediante leis da Natureza, tudo com entendimento (Binah). Enfim, just a thought.

Note-se que há onze sefirot. Mas a Bíblia tem como número simbólico não onze, mais doze. Qual seria a décima segunda força? Creio que a força que une tudo, a emanação da energia que dinamiza e transfere vida e existência a todos os condutos, realizando coisas concretas na potência de cada um, manifestando toda a sua essência nas substâncias, partículas, ondas, eventos individuais e históricos, macrocosmos, universos paralelos e infinitos.

Para isso, as sefirot da “árvore da vida” se conectam verticalmente em cadeias infinitas, um Reino (Malkut) superior se ligando à Coroa (Keter) de um elo inferior, e assim sucessivamente, até o infinito.

Para a Cabala, assim como não há causa sem efeito, o efeito também é nova causa da sequência de eventos e realidades, em uma cadeia infinita. Começo e fim são, dessa forma, inseparáveis. Nesse sentido, a Coroa (Keter) é uma causa, e o Reino (Malkut) é um efeito.

Nesse encadeamento infinito, a Malkut de um “reino superior” é a causa do Keter do “reino inferior”. Na criação, o Malkut de Azilut é a causa do Keter de Beriah; o Malkut de Beriah é a causa do Keter de Yetzirah, e assim por diante.

Nessa lógica de encadeamento, segundo a Cabala, e na contramão da filosofia grega, não é possível conceituar Deus como causa. Causa depende do efeito, reciprocamente, como visto, mas Deus não pode depender de nada, Ele É soberano.

A vontade criadora se situa no nível da Coroa (Keter) – ver abaixo a discussão sobre a vontade.

 

Outro conceito interessante da Cabala é o de Tzimtzum (צמצום), traduzido como contração. Para realizar o ato criador, Deus contraiu Sua Luz Infinita (Or Ein Sof אור אין סוף) e gerou um espaço vazio – o Nada / Ayin (אַיִן), literalmente, “Sem”, “não há”. A contração absoluta do Tudo gerou o Nada. O “Ser” gerou o “Sem” (não-Ser); o “haja” gerou o “não há”.

O Tzimtzum é esse ato de contração da Luz Divina até gerar o Nada. Esse Nada / Ayin (אַיִן) contém o Infinito, ou Sem Fim (Ein Sof / אין סוף). O lugar no qual toda a criação seria colocada. A criação, portanto, nasce no Nada, que contém o Infinito.

Vale lembrar, a propósito do ato de criar um espaço, que o conceito de “dentro” (preposição “em”), em hebraico, é o sufixo letra “B” / bet (ב), que também é a primeira letra da palavra “casa” / beit (בַּיִת) e a primeira letra da primeira palavra do Gênesis – Bereshit (בראשית), traduzida como “no princípio”, mas que literalmente significa “dentro do primeiro”, ou “dentro da cabeça”.

O universo é criado em um espaço dentro do Nada, que contém o Infinito, tudo gerado pela contração da luz infinita do Criador para gerar as coisas, usando Sua Palavra, Sua Sabedoria e Seu Amor.

Toda a existência estava presente em potência numa luz simples, absurdamente densa e indiferenciada: a Luz Infinita (Or Ein Sof). O Criador sentiu a vontade de criar o universo. Para isso, contraiu-se completamente, e dessa contração de sua Luz Infinita formou-se um espaço vazio, o Nada (Ayin), onde se localiza e está contido o Infinito (Ein Sof). A partir daí, a Luz, que estava no centro, passou a produzir emanações da essência de Deus circundando o vazio, o Nada, formando circunferências com seu potencial realizador por meio da Palavra Criadora. Assim foram criados, formados e feitos todos os universos e todas as coisas.

Se não houvesse essa concentração (Tzimtzum) para a formação de um espaço criador, e posterior emanação, não haveria criação, tudo continuaria sendo a Luz Infinita, simples e indiferenciada, em estado de puro potencial.

A presença da luz, que se comporta como partícula e como onda, na formação da massa é cada vez mais estudada e aplicada na física quântica. A equivalência entre energia e massa já havia sido sublinhada por Einstein em sua clássica fórmula E = mc2.

O Nada é a ausência de materialidade, de aglomerados de partículas com massa, pura energia. Para que a energia gere massa, é preciso que haja tensão e fricção no campo de ondas quânticas, e que as “cordas” de energia vibrem em padrões bem específicos e delimitados. A luz está presente nesse processo.

misticismo judeu explica a criação do universo como um recipiente de barro que não pôde conter a Luz Infinita, pela pressão de uma força absolutamente descomunal e inimaginavel, e se quebrou em pedaços. A partir daí, o que era Luz indiferenciada e simples tornou-se o universo complexo e diferenciado, mas sempre ligado à Luz original e ao Criador.

Essas concepções cabalistas medievais de contração (Tzimtzum) e expansão antecipam em séculos, de forma intuitiva, a singularidade do Big Bang descoberta no século XX.

Outro desdobramento é a bela imagem do Tikun Olam (תיקון עולם), que significa, literalmente, “conserto do mundo” ou “do universo”. Com a ruptura do receptáculo que não pôde mais conter a Luz Infinita, a singularidade criadora rompe a harmonia simples e absurdamente densa e homogênea. Por causa disso, o universo está estruturalmente quebrado, e precisa ser consertado. O ato criador trouxe imperfeição para o universo, e precisa ser reparado para voltar à harmonia com o Criador. Essa é a ideia do Tikun Olam: todos têm o dever de ajudar a reparar o recipiente do universo, inclusive como parceiros da criação, para que esta retorne à perfeição de Deus.

 

 



[1] O conceito de Neshamá tem semelhanças com o do Atman, na literatura veda, que tem o sentido de self, pura consciência da alma eterna e imperecível, da mesma essência de Brahman.

* Publicada pela Society for Distributing Hebrew Scriptures, Hitchin, UK.

[2] O hinduísmo prefere o conceito de emanação ao de criação. A filosofia Veda apresenta as entidades como expansões da energia do Senhor Supremo, da Personalidade de Deus, em formatos energéticos.